sábado, 6 de outubro de 2012

A fúria da juventude, a repressão bestial e a arte de intensidade tropical


Antonio Carlos Ribeiro

A Tropicália atenuou parte da fúria da juventude, ousada e inteligente, frente à bestialidade da repressão. Ao lidar com os sentimentos, através de diversas formas de expressão artística e cultural, atenuou em pequena escala a desumanidade oficial, que quanto mais demente, menos causas tinha e sempre mais consequências. Esse conjunto de manifestações aparece no filme Tropicália (Direção: Marcelo Machado, Produção: Denise Gomes e Paula Cosenza, Roteiro: Di Moretti e Marcelo Machado, Trilha Sonora: Kassin, 82 min., Documentário, Brasil, 2012).


O Tropicalismo ou Movimento Tropicalista foi um movimento cultural surgido da influência de diversas correntes artísticas de vanguarda e da cultura popular nacional e estrangeira, o pop, especialmente o pop-rock e o concretismo. Tomou de empréstimo diversas formas das manifestações tradicionais da cultura brasileira a inovações estéticas radicais. Tinha grupos com objetivos comportamentais, que encontraram eco em boa parte da sociedade, sob o regime militar, em manifestações realizadas no final da década de 1960.

Tendo como maiores expressões Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto, Os Mutantes e Tom Zé, o movimento tropicalista se mostrou principalmente na música, mas teve outras manifestações artísticas, como as artes plásticas, onde se destacou amplamente o artista Hélio Oiticica, o cinema, com destaque para o Cinema Novo de Gláuber Rocha, com as influências que sofreu, e o teatro brasileiro, no qual a grande dramaturgia surgiu nas peças de José Celso Martinez Corrêa, com traços tipicamente anárquicos.

Provavelmente a maior expressão do conjunto do movimento tropicalista foi a canção Tropicália, de Caetano Veloso. Mas o leque de participações artísticas inclui nomes como Capinam, Gal Costa, Gilberto Gil, Glauber Rocha, Guilherme Araújo, Jards Macalé, Jorge Mautner, Júlio Medaglia, Lanny Gordin, Os Mutantes, Rita Lee, Rogério Duarte, Rogério Duprat, Tom Zé, Torquato Neto, Waly Salomão, os mais expressivos.

As circunstâncias da ditadura – sistema autoritário, gente com baixa formação nos governos nomeados por eles, sem humanidade, sensibilidade e, sobretudo criatividade – expunha a Tropicália, até porque ela tinham qualidade. O movimento desperta a atenção não porque se oponha ao regime, mas porque enche os olhos do público, acostumado a coisas sem valor estético como armas, uniformes e AI5. Ao lado disso, figuras tão midiáticas quanto Gil e Caetano, que naturalmente despertaram a atenção.

O filme situa historicamente o fator tempo, recuando para contextualizar seus personagens, período de 1967 a 1969, que cobre um bastante conflituoso e no qual o movimento aconteceu de verdade. Assim, o início da década de 1970 e o exílio de Caetano e Gil na Inglaterra, além da repressão brutal, era uma forma do regime dizer que tinha as rédeas, aliás, uma imagem rural para lidar com um fenômeno culturalmente urbano. Ao focar alguns desses elementos o documentário mostra boa pesquisa e um quadro fiel das manifestações.

A obra não tem intenção didática, mas dar um perfil do conjunto, as manifestações, os principais artistas, a contradição da crítica e a junção desta com a manifestação dos estudantes secundaristas e universitários. O risco e omissão nos detalhes é uma consequência de cobrir um período curto, mas muito intenso de produção cultural, diante de um governo sem mecanismos de gestão do Estado e ameaçado pelo movimento estudantil.

A presença de intelectuais na Tropicália é perturbadora para o regime militar. Não apenas militares, mas mesmo agentes civis eram muito mal formados, o que os fragilizava. Entre os nomes já citados, agregam-se os do escritor José Agripino de Paula, do artista Rubens Gerchman, do músico Jorge Ben e de letristas como Torquato Neto e José Carlos Capinam.

Marcelo Machado faz composições de imagens que integram registros de documentários, reconstruções posteriores do período, notícias de jornais e revistas, as canções dos Festivais de Música, que reúne um significativo volume de informações. O movimento integrou ainda a Jovem Guarda, o cinema de Glauber Rocha, especialmente o filme Terra em Transe, os parangolés e instalações de Hélio Oiticica – que cunhou a expressão tropicália e o teatro de Zé Celso Martinez Corrêa, com a montagem da peça O Rei da Vela, com a linguagem antropofágica de Oswald de Andrade – ao incorporar estrangeirismos e recriá-las na língua nacional.

A montagem dos diversos fragmentos na obra deve ter sido prazerosa para Oswaldo Santana. Imagens, trilha sonora, recortes de noticiário, cartazes, fotos e depoimentos foram a matéria prima de Tropicália. Essas sequências, cadenciadas com o ritmo das músicas e os sinais letais da repressão dão o tom. A outra vem dos ‘devaneios’ reproduzidos através de cores psicodélicas na tela, as animações criativas e fotos de pessoas, situações e cenas que marcaram época. As imagens montadas vão te reconduzir ao fim dos anos 60. A emoção pode ser forte! Preparados?

http://www.youtube.com/watch?v=Icb1y0K_tPg&feature=player_embedded

2 comentários:

Passos disse...

Compartilhei no Facebook. Um abraço. Prof. Passos

Dia-logar: transcender a palavra disse...

Grato, amigo querido.

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