Antonio Carlos Ribeiro
A Cooperativa de Agricultura Familiar de Produtos Orgânicos (UNIVERDE) foi fundada por 16 famílias de agricultores familiares de Vila de Cava, distrito do município de Nova Iguaçu, e cultivam 30 espécies de hortaliças e plantas medicinais em terrenos urbanos cedidos pela Petrobrás. Este projeto é semelhante aos apoiados pela Fundação Luterana de Diaconia (FLD).
A Univerde recebe apoio da SPTA, entidade que atua com famílias de agricultores em canteiros na zona urbana e pré-urbana em áreas de dutos, constrói estufas para produção de mudas, cria um banco de sementes e acompanham a produção de alimentos nestes quintais.
As famílias trabalham com o cultivo de orgânicos em áreas de dutos há sete anos. Eles comercializam as hortaliças em feiras no Rio de Janeiro, Duque de Caxias, Niterói e no próprio município, e atendem o programa de merenda escolar do município de Nova Iguaçu. 70% dos cooperados são mulheres e ocupam quatro das cinco vagas da diretoria.
As raízes da hortaliças não podem ter mais que 30 cm, para que não interfiram nos dutos. A Petrobrás cede 1.000m2 a cada família. Muitos deles vieram de famílias de agricultores, mas admitem que têm dificuldades de motivar os filhos a seguir neste trabalho. A comercialização e os estímulos da agroecologia estão entre as motivações.
Em geral se dispõem a confiar a coordenação e administração de áreas aos jovens. A razão é que quando se sentem responsáveis, eles se empenham mais, dizem os pais. As mudas são trazidas de Petrópolis, na serra fluminense, mas perde delas se perde por causa da diferença do clima.
Os cooperados contribuem com 5% do lucro para a manutenção da cooperativa. Receberam uma grande ajuda ao participar do programa da Alimentação Escolar, para a qual entregam cerca de 600 pés de alface por mês. Para as famílias, a maior vantagem é trabalhar com alimentação orgânica e ter vida saudável, já que não sofreram mais de problemas de saúde após essa atividade. A irrigação é feita pela água drenada de um poço artesiano.
Para esta tarefa recebem, além da cessão do terrenos, estímulos de empresas subsidiárias como a Transpiro, cursos promovidos pela SPTA e um curso de extensão do Curso de Agricultura da Universidade Federal Fluminense (UFF). A SPTA acompanha a produção, intermédia contatos e espaços nas feiras livres e a melhoria da qualidade. Já os alunos, professores e técnicos orientam na reorganização do terreno e fazem a análise do solo e da água do local.
quinta-feira, 26 de julho de 2012
quarta-feira, 25 de julho de 2012
Daniel Souza: Juventude, ecumenismo e incidência política
Antonio Carlos Ribeiro
“A REJU é composta de pessoas que abraçam a causa da juventude, não são igrejas e entidades. É um grupo eclético, com pessoas de diversas idades, lugares e formações distintas”, disse. Participam do Conselho Nacional de Juventude (CONJUVE) e buscam construir projetos e pautas que incidam de alguma maneira na reflexão sobre as políticas públicas de juventude no país. Há católicos, evangélicos, pentecostais autônomos, budistas, hare krishnas e fieis do candomblé que decidiram formar o grupo em 2007, que conta hoje cerca de 300 participantes.
Os objetivos da REJU, segundo Daniel, estão estruturados em quatro eixos. A juventude e a justiça socioambiental, a superação da intolerância religiosa e sexual, a articulação arte, cultura e juventude – como muralismo, balé, teatro do oprimido – , e o fortalecimento da rede, pela qual se relacionam com outros grupos. Para isso usam recursos como a redes sociais da internet, o correio eletrônico e o sítio da REJU (http://redeecumenicadajuventude.org.br).
A partir dessa estrutura, os jovens lutam pela efetivação do Estado Laico, propugnam a liberdade religiosa, defendem a democratização da justiça ambiental, se esforçam por empoderar a juventude ecumênica em relação às políticas públicas para a Juventude e produzem material sobre esses temas e sua incidência na realidade, a partir dos próprios jovens, explicou Souza.
Como todo grupo humano, têm também ambiguidades, como jovens conservadores, gente que vive nos limites, e gente de denominações evangélicas tradicionais, como a Assembleia de Deus. Indagado sobre o que reúne tanta diversidade entre os jovens, respondeu de pronto: “o eixo articulador é a luta pela justiça”, para ele, isso problematiza a teoria.
No grupo não há hierarquia, o que facilita o debate. Isso propicia também um retorno para a comunidade de fé. Há jovens que levam atividades do grupo para sua igreja, mesmo sem usar a palavra 'ecumênico'. Isso significa contato com grupos religiosos e acesso a grupos de jovens que começam a despertar para os problemas da juventude. Mas o grande ponto de encontro é a reunião mensal no sítio da REJU.
Sobre os temas privilegiados na realidade brasileira, Daniel menciona situações dramáticas como o extermínio de jovens, que incluem membros da Assembleia de Deus e do Candomblé, residentes em Brasilândia - um distrito situado na zona norte de São Paulo, com 21 km² de área, possibilitando entrar em situações que poucas vezes aparecem na mídia, e menos ainda, problematizadas.
O principal coroamento dessa caminhada é o livro O Espírito sopra onde quer..." - estudos bíblicos para uma convivência ecumênica, que foi lançado em 2011 e é um trabalho elaborado por jovens de espiritualidade metodista, luterana, anglicana, batista ou cristã. Eles elaboraram uma excelente contribuição para a Campanha Contra a Intolerância Religiosa, servindo ao debate desse tema e à desconstrução de leituras conservadoras.
Ao ser debatido no Fórum Ecumênico Brasil, surgiu a ideia de ampliar a proposta. Foram acrescentados textos problematizadores, com abordagem de igrejas e religiões, Estudos bíblicos e Diálogos intergeracionais, que tiveram a participação do teólogo Leonardo Boff, da teóloga Ivone Gebara e do filósofo Jorge Atílio Iulianelli, projeto que recebeu apoio do Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI), da Fundação Luterana de Diaconia (FLD) e do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI).
Sobre atuações mais diretas, Souza informa que têm surgido espaço em conselhos municipais e no Conselho Nacional da Juventude (Conjuve). Isso amplia a perspectiva na abordagem e faz os jovens perceberem como “ecumênico é um valor”, enfatizou, lembrando que a antropóloga Regina Novaes afirmou que “77% dos jovens articula crenças religiosas”.
E a médio prazo, os objetivos da REJU são sistematizar a importância da juventude nas políticas públicas, fortalecer a caminhada ecumênica e lidar com a intolerância, frente à qual a vivência dos membros já é um passo.
A Rede Ecumênica da Juventude (REJU) é uma articulação de jovens de distintas espiritualidades em torno dos direitos dos jovens, partindo do debate das diversas experiências de fé, no sentido mais amplo, e a partir dessa base incidir politicamente. Essa é a perspectiva de Daniel Souza, que é facilitador nacional da rede, coordena atividades, integra a comissão de comunicação e participa da Mesa Diretora. Após um culto para a juventude, realizado na Paróquia Martin Luther, previsto na programação da REJU na Cúpula dos Povos, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), ele concedeu entrevista à ALC.
“A REJU é composta de pessoas que abraçam a causa da juventude, não são igrejas e entidades. É um grupo eclético, com pessoas de diversas idades, lugares e formações distintas”, disse. Participam do Conselho Nacional de Juventude (CONJUVE) e buscam construir projetos e pautas que incidam de alguma maneira na reflexão sobre as políticas públicas de juventude no país. Há católicos, evangélicos, pentecostais autônomos, budistas, hare krishnas e fieis do candomblé que decidiram formar o grupo em 2007, que conta hoje cerca de 300 participantes.
Os objetivos da REJU, segundo Daniel, estão estruturados em quatro eixos. A juventude e a justiça socioambiental, a superação da intolerância religiosa e sexual, a articulação arte, cultura e juventude – como muralismo, balé, teatro do oprimido – , e o fortalecimento da rede, pela qual se relacionam com outros grupos. Para isso usam recursos como a redes sociais da internet, o correio eletrônico e o sítio da REJU (http://redeecumenicadajuventude.org.br).
A partir dessa estrutura, os jovens lutam pela efetivação do Estado Laico, propugnam a liberdade religiosa, defendem a democratização da justiça ambiental, se esforçam por empoderar a juventude ecumênica em relação às políticas públicas para a Juventude e produzem material sobre esses temas e sua incidência na realidade, a partir dos próprios jovens, explicou Souza.
Como todo grupo humano, têm também ambiguidades, como jovens conservadores, gente que vive nos limites, e gente de denominações evangélicas tradicionais, como a Assembleia de Deus. Indagado sobre o que reúne tanta diversidade entre os jovens, respondeu de pronto: “o eixo articulador é a luta pela justiça”, para ele, isso problematiza a teoria.
No grupo não há hierarquia, o que facilita o debate. Isso propicia também um retorno para a comunidade de fé. Há jovens que levam atividades do grupo para sua igreja, mesmo sem usar a palavra 'ecumênico'. Isso significa contato com grupos religiosos e acesso a grupos de jovens que começam a despertar para os problemas da juventude. Mas o grande ponto de encontro é a reunião mensal no sítio da REJU.
Sobre os temas privilegiados na realidade brasileira, Daniel menciona situações dramáticas como o extermínio de jovens, que incluem membros da Assembleia de Deus e do Candomblé, residentes em Brasilândia - um distrito situado na zona norte de São Paulo, com 21 km² de área, possibilitando entrar em situações que poucas vezes aparecem na mídia, e menos ainda, problematizadas.
O principal coroamento dessa caminhada é o livro O Espírito sopra onde quer..." - estudos bíblicos para uma convivência ecumênica, que foi lançado em 2011 e é um trabalho elaborado por jovens de espiritualidade metodista, luterana, anglicana, batista ou cristã. Eles elaboraram uma excelente contribuição para a Campanha Contra a Intolerância Religiosa, servindo ao debate desse tema e à desconstrução de leituras conservadoras.
Ao ser debatido no Fórum Ecumênico Brasil, surgiu a ideia de ampliar a proposta. Foram acrescentados textos problematizadores, com abordagem de igrejas e religiões, Estudos bíblicos e Diálogos intergeracionais, que tiveram a participação do teólogo Leonardo Boff, da teóloga Ivone Gebara e do filósofo Jorge Atílio Iulianelli, projeto que recebeu apoio do Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI), da Fundação Luterana de Diaconia (FLD) e do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI).
Sobre atuações mais diretas, Souza informa que têm surgido espaço em conselhos municipais e no Conselho Nacional da Juventude (Conjuve). Isso amplia a perspectiva na abordagem e faz os jovens perceberem como “ecumênico é um valor”, enfatizou, lembrando que a antropóloga Regina Novaes afirmou que “77% dos jovens articula crenças religiosas”.
E a médio prazo, os objetivos da REJU são sistematizar a importância da juventude nas políticas públicas, fortalecer a caminhada ecumênica e lidar com a intolerância, frente à qual a vivência dos membros já é um passo.
sábado, 21 de julho de 2012
Fausto – da estética medieval aos dilemas modernos
Antonio Carlos Ribeiro
O filme Fausto (Faust, dir. Alexandr Sokurov, com Johannes Zeiler, Anton Adsinskiy, Isolda Dychauk e Georg Friedrich, Drama, Rússia) retoma os dilemas existenciais de quem arrisca a própria vida, quase sempre para sobreviver, se tornando vítima do enredo afetivo do qual sai como criminoso e sem o amor da amada, em nome de sentimentos legítimos e verdadeiros.
Obra que rendeu o Leão de Ouro de Veneza ao diretor, tem a densidade como a principal característica da narrativa. É uma versão do clássico poema de Johann Wolfgang von Goethe, que viveu de meados do século XVIII às primeiras décadas do século XIX, e descreve o médico que faz um pacto com o diabo e depois luta desesperadamente para assumir os preços de sua opção.
A apropriação e nova narrativa de Sokurov tem no estético um grande valor, e este é codificado pela ótica de Bruno Delbonnel, que dirigiu a fotografia de Harry Potter e o enigma do príncipe e é conhecido pela experimentação que atrai seguidores no cinema contemporâneo. Assim, o pano de fundo do filme é uma Alemanha do século XVIII – vista pela estética medieval, sem nenhum dos avanços próprios daquela época – para dar roupagem ao Fausto de Goethe.
O poema, transformado numa obra monumental dividida em duas partes e feito um marco da literatura ocidental, surge da adaptação da lenda do homem que acumulou os saberes do mundo, mas se desiludiu com o conhecimento de seu tempo, fez um pacto com o demônio Mefistófeles, atendidas necessidades como dinheiro e a mulher amada, em troca de sua alma.
Essa estória ganha, na fotografia de Delbonnel e a direção de Sokurov, um universo de traços absolutamente inconfundíveis – como a necrópsia em que o cadáver tem o rosto coberto e o estômago aberto, de onde órgãos internos caem aos pedaços, junto com a tripa intestinal – no mesmo espaço em que as pessoas mal se lavam para se alimentar. Recusar uma linguagem naturalista força uma nova hermenêutica, pela caracterização dos personagens.
O talento plástico da fotografia, somado aos diálogos da narrativa compõem um quadro em que tudo se dilata, do tempo aos costumes, das anamorfoses às deformações, dos banhos públicos no mesmo espaço de lavagem da roupa, da mulher bem vestida que delira no sepultamento do marido, dando à narrativa uma imagem expressionista.
O Dr. Fausto (Johannes Zeiler) de Sokurov, não tem traços românticos, mas é cínico e utilitarista, disposto a alcançar seu objetivo, passando por cima de qualquer. O personagem provoca uma busca constante de sentido da plateia, faz piadas, se introduz em atos e cerimônias a que não foi convidado, despertando questões, com diálogos longos e linguagem de sentidos múltiplos. Essa estética toca a contemporaneidade.
A narrativa do cineasta russo parece uma explicação do século XX, compondo a tetralogia em que descreve o morticínio em massa, iniciada com Moloch (1999), sobre Hitler, Taurus (2001), sobre Lênin, O Sol (2005), sobre Hirohito, e agora Fausto, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza do ano passado. Esses personagens, refletem o desejo insaciável do personagem por conhecimento e poder, que para ele é a fonte do mal do século XX.
Ao que parece, ele quer descrever Fausto como um personagem central, vindo da aurora da Renascença, que se ergue como prototípico do homem moderno. Parece um esforço quase obsessivo para descrever a ambição humana de controlar a natureza e a história.
O enredo vai deixando pistas que em algum momento ele se afirmará, deixará o processo que o trouxe até àquele caminho e começará um círculo virtuoso de ajuste, naturalidade e humanidade. Mas o quadro avança de forma desesperada, irreversível e sem perspectiva, só efetivando a dimensão do drama para os expectadores com o desfecho fatídico.
O filme dá diversos elementos para entender uma modernidade que reluta em se desligar do ambiente medieval, com sua linguagem religiosa que a tudo amalgama, provê as razões e as consequências, sem faltar com o elemento fatalidade, na lógica explicativa do Sokurov. Para quem gosta da narrativa mitológica e fantástica de Goethe, recomendo assistir.
sexta-feira, 20 de julho de 2012
‘Era uma vez... GRIMM’ arranca aplausos prolongados
Antonio Carlos Ribeiro
A peça teatral Era uma vez... GRIMM, do autor, diretor e ator José Mauro Brant, e o ator e músico Tim Rescala, consegue apresentar uma primorosa pesquisa, releitura de clássicos, música instrumental, figurino impecável, recursos de palco e imagens digitais complementares, somados a um elenco preparado, afinado e bem humorado.
A peça está em cartaz de 5ª a domingo até o fim de julho no Teatro Sesc Ginástico, como um duplo musical, nas versões infantil e adulta. A apresentação revela o primor ao lidar com as histórias dos Grimm, o contexto da época e a interação com nossa realidade, revelando uma pesquisa dedicada à busca da linguagem mais abrangente para contar histórias, com boa música instrumental.
A montagem faz uma releitura de clássicos como Cinderela, Chapeuzinho Vermelho e O Junípero, homenageando os 200 anos da primeira edição do volume de contos dos Irmãos Grimm, recebendo assessoria pedagógica e curadoria de mesas de debates da Cátedra UNESCO de Leitura (PUC-Rio).
A seleção dos contos é adaptada a uma linguagem musical com momentos de comédia e terror, no mesmo ritmo das cenas dos atores e das imagens digitais sobre uma tela semitransparente, que permite vislumbrar os músicos – que acompanham tocando trompa, flauta, clarinete, violoncelo e viola, sob a direção de Rescala – sem que os atores José Mauro Brant e Wladimir Pinheiro, como os irmãos Grimm e os personagens dos contos, e as atrizes Ester Elias e Janaina Azevedo, que dão vida às madrastas e princesas deixem o palco principal.
A obra bicentenária dos irmãos Jacob (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859) é o livro Contos da Criança e do Lar, publicado com apenas 900 exemplares. Assim, o espetáculo descreve a vida dos irmãos e dos personagens de seus livros.
Além da movimentação no palco, os atores usam técnicas como manipulações de bonecos, projeções de imagens e jogos de sombras ao encenar personagens conhecidos do público, sem abrir mão da forma escrita original dos contos.
O espetáculo é apresentado ao público infantil aos sábados e domingos às 16 horas. Já o público adulto, lucra com as apresentações de quinta a domingo às 19 horas, com mudanças na encenação. O palco parece o desdobramento de um livro gigante para contos universais, do qual saltam personagens tidos como infantis, mas são interpretados para adultos.
Segundo José Mauro Brant, “a intenção foi resgatar esse lado menos explorado, sem perder o lirismo”, que divide a direção da peça ao lado de Sueli Guerra, e atuarem nela. Já a música, com traços de ópera, tem a marca de Tim Rescala, através das canções tocadas e dos enredos, ao desenrolar das tramas.
A peça teatral Era uma vez... GRIMM, do autor, diretor e ator José Mauro Brant, e o ator e músico Tim Rescala, consegue apresentar uma primorosa pesquisa, releitura de clássicos, música instrumental, figurino impecável, recursos de palco e imagens digitais complementares, somados a um elenco preparado, afinado e bem humorado.
A peça está em cartaz de 5ª a domingo até o fim de julho no Teatro Sesc Ginástico, como um duplo musical, nas versões infantil e adulta. A apresentação revela o primor ao lidar com as histórias dos Grimm, o contexto da época e a interação com nossa realidade, revelando uma pesquisa dedicada à busca da linguagem mais abrangente para contar histórias, com boa música instrumental.
A montagem faz uma releitura de clássicos como Cinderela, Chapeuzinho Vermelho e O Junípero, homenageando os 200 anos da primeira edição do volume de contos dos Irmãos Grimm, recebendo assessoria pedagógica e curadoria de mesas de debates da Cátedra UNESCO de Leitura (PUC-Rio).
A seleção dos contos é adaptada a uma linguagem musical com momentos de comédia e terror, no mesmo ritmo das cenas dos atores e das imagens digitais sobre uma tela semitransparente, que permite vislumbrar os músicos – que acompanham tocando trompa, flauta, clarinete, violoncelo e viola, sob a direção de Rescala – sem que os atores José Mauro Brant e Wladimir Pinheiro, como os irmãos Grimm e os personagens dos contos, e as atrizes Ester Elias e Janaina Azevedo, que dão vida às madrastas e princesas deixem o palco principal.
A obra bicentenária dos irmãos Jacob (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859) é o livro Contos da Criança e do Lar, publicado com apenas 900 exemplares. Assim, o espetáculo descreve a vida dos irmãos e dos personagens de seus livros.
Além da movimentação no palco, os atores usam técnicas como manipulações de bonecos, projeções de imagens e jogos de sombras ao encenar personagens conhecidos do público, sem abrir mão da forma escrita original dos contos.
O espetáculo é apresentado ao público infantil aos sábados e domingos às 16 horas. Já o público adulto, lucra com as apresentações de quinta a domingo às 19 horas, com mudanças na encenação. O palco parece o desdobramento de um livro gigante para contos universais, do qual saltam personagens tidos como infantis, mas são interpretados para adultos.
Segundo José Mauro Brant, “a intenção foi resgatar esse lado menos explorado, sem perder o lirismo”, que divide a direção da peça ao lado de Sueli Guerra, e atuarem nela. Já a música, com traços de ópera, tem a marca de Tim Rescala, através das canções tocadas e dos enredos, ao desenrolar das tramas.
domingo, 15 de julho de 2012
“Na Estrada”. E para ficar
Antonio Carlos Ribeiro
O filme Na Estrada (On The Road, EUA, 2012, dirigido por Walter Salles, com Sam Riley, Garrett Hedlund, Kristen Stewart, Kirsten Dunst, Viggo Mortensen, Amy Adams, Alice Braga, Steve Buscemi) é uma marca registrada da geração beat, ao suceder a geração perdida de Ernst Hemingway e deixar sua marca na literatura.
A película digital é baseada na obra de Jack Kerouack, o escritor beat e segue a rota de Dean e Sal – que contracenam com um conjunto de personagens que aparecem – nas cidades e estradas dos Estados Unidos, de Nova York às cidades fronteiriças com o México.
Os beats eram jovens que marcaram época como seres de certa pureza, iluminação, por isso ‘beatíficos’. Viveram um tempo de buscas e confrontos, por isso sua busca era afirmativa, intensa e com a estrada embarreirada por sexo, drogas e os ritmos que precederam o surgimento do rock. Há os que afirmem que encontraram seu próprio caminho, algo entre o senso de coletividade do anos 50 e a tomada da responsabilidade pessoal, dos 70.
Sem conformismo diante dos limites da sociedade, os beats propunham sexo selvagem, drogas recreativas, distância das raízes familiares e novas formas de expressão, como a escrita experimental de todos os tipos. A busca pelo autoconhecimento é frenética e ganha a força com que desemboca no movimento hippie.
Esse período após a 2ª guerra mundial vai iniciar um conjunto de mudanças, a começar nos EUA como país líder do grupo de aliados, ao perceber as possibilidades dessa chance ímpar e partir freneticamente em busca da liderança, com os diversos impactos que isso causou à sua população – em especial aos jovens – mas também à dos países aliados, tão logo começaram a passar à condição de aliados-subalternos ou inimigos, definindo sua condição.
O impacto desse pano de fundo se reflete nas diversas situações mostradas em Na Estrada, com destaque para a condição de vida dos cidadãos americanos, especialmente os que não vivem nas duas costas marítimas. A busca por trabalho, especialmente carregando caminhões, colhendo algodão ou se empregando em fazendas serão o cenário das aventuras de Sal, cujos apontamentos frequentes serão a matéria prima de On the Road.
Duas participações brasileiras mostram qualidade – sobretudo num elenco de nomes conhecidos – um na direção e outra como coadjuvante. Trata-se do diretor Walter Salles, que tem recebido elogios da crítica e demonstrado avanços no domínio da linguagem cinematográfica, e da atriz Alice Braga, que vive uma imigrante mexicana a quem ‘Sal’ conhece num acampamento de operários que colhem algodão numa fazenda na divisa com o México.
Esse momento marca o início da migração dos mexicanos para os EUA, em busca de condições vida e ao custo de baixos salários, a que se submetem para fugir da fome. Os salários que giram em torno de US$ 1 por um dia inteiro de trabalho, sob o sol e o vento de regiões desertificadas, dão uma noção do perfil das relações de trabalho na metade do século passado.
A atriz Alice Braga concedeu entrevista mostrando-se satisfeita com sua participação, com o perfil da personagem e da experiência de acompanhar o grupo por três semanas. “Achei muito especial fazer uma personagem como ela, jovem, mulher, com filho. Ela é muito forte isso para essa década de 40 em que ela vive, mas é uma mulher a quem a vida impõe uma maturidade. Mas ela não sente autopiedade e é uma personagem forte”.
Ela se refere às cenas com ‘Sal’ como “um encontro inesperado, em que os dois estão abertos para viver aquilo. Acho que ele traz humor, e ela traz exatamente o que ele está buscando na jornada dele. Ele está buscando o desconhecido, está buscando experiências diferentes”. E relata que por causa da programação do roteiro, ficou filmando durante 3 semanas com o grupo. Com todas as oscilações da estória, a trama passa a plausibilidade dessas vida Na Estrada. É a leitura destes anos de promessas que se frustram, o que faz do livro/filme um must na cultura do pós-guerra. O trabalho do diretor levou-o a Cannes, representando o Brasil.
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=uUzklNReJbs
O filme Na Estrada (On The Road, EUA, 2012, dirigido por Walter Salles, com Sam Riley, Garrett Hedlund, Kristen Stewart, Kirsten Dunst, Viggo Mortensen, Amy Adams, Alice Braga, Steve Buscemi) é uma marca registrada da geração beat, ao suceder a geração perdida de Ernst Hemingway e deixar sua marca na literatura.
A película digital é baseada na obra de Jack Kerouack, o escritor beat e segue a rota de Dean e Sal – que contracenam com um conjunto de personagens que aparecem – nas cidades e estradas dos Estados Unidos, de Nova York às cidades fronteiriças com o México.
Os beats eram jovens que marcaram época como seres de certa pureza, iluminação, por isso ‘beatíficos’. Viveram um tempo de buscas e confrontos, por isso sua busca era afirmativa, intensa e com a estrada embarreirada por sexo, drogas e os ritmos que precederam o surgimento do rock. Há os que afirmem que encontraram seu próprio caminho, algo entre o senso de coletividade do anos 50 e a tomada da responsabilidade pessoal, dos 70.
Sem conformismo diante dos limites da sociedade, os beats propunham sexo selvagem, drogas recreativas, distância das raízes familiares e novas formas de expressão, como a escrita experimental de todos os tipos. A busca pelo autoconhecimento é frenética e ganha a força com que desemboca no movimento hippie.
Esse período após a 2ª guerra mundial vai iniciar um conjunto de mudanças, a começar nos EUA como país líder do grupo de aliados, ao perceber as possibilidades dessa chance ímpar e partir freneticamente em busca da liderança, com os diversos impactos que isso causou à sua população – em especial aos jovens – mas também à dos países aliados, tão logo começaram a passar à condição de aliados-subalternos ou inimigos, definindo sua condição.
O impacto desse pano de fundo se reflete nas diversas situações mostradas em Na Estrada, com destaque para a condição de vida dos cidadãos americanos, especialmente os que não vivem nas duas costas marítimas. A busca por trabalho, especialmente carregando caminhões, colhendo algodão ou se empregando em fazendas serão o cenário das aventuras de Sal, cujos apontamentos frequentes serão a matéria prima de On the Road.
Duas participações brasileiras mostram qualidade – sobretudo num elenco de nomes conhecidos – um na direção e outra como coadjuvante. Trata-se do diretor Walter Salles, que tem recebido elogios da crítica e demonstrado avanços no domínio da linguagem cinematográfica, e da atriz Alice Braga, que vive uma imigrante mexicana a quem ‘Sal’ conhece num acampamento de operários que colhem algodão numa fazenda na divisa com o México.
Esse momento marca o início da migração dos mexicanos para os EUA, em busca de condições vida e ao custo de baixos salários, a que se submetem para fugir da fome. Os salários que giram em torno de US$ 1 por um dia inteiro de trabalho, sob o sol e o vento de regiões desertificadas, dão uma noção do perfil das relações de trabalho na metade do século passado.
A atriz Alice Braga concedeu entrevista mostrando-se satisfeita com sua participação, com o perfil da personagem e da experiência de acompanhar o grupo por três semanas. “Achei muito especial fazer uma personagem como ela, jovem, mulher, com filho. Ela é muito forte isso para essa década de 40 em que ela vive, mas é uma mulher a quem a vida impõe uma maturidade. Mas ela não sente autopiedade e é uma personagem forte”.
Ela se refere às cenas com ‘Sal’ como “um encontro inesperado, em que os dois estão abertos para viver aquilo. Acho que ele traz humor, e ela traz exatamente o que ele está buscando na jornada dele. Ele está buscando o desconhecido, está buscando experiências diferentes”. E relata que por causa da programação do roteiro, ficou filmando durante 3 semanas com o grupo. Com todas as oscilações da estória, a trama passa a plausibilidade dessas vida Na Estrada. É a leitura destes anos de promessas que se frustram, o que faz do livro/filme um must na cultura do pós-guerra. O trabalho do diretor levou-o a Cannes, representando o Brasil.
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=uUzklNReJbs
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